• UFPI

  • COORDENAÇÃO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUEOLOGIA/CCN

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO







  • Dissertações/Teses - 2026

    LORENA FRANCISCA DE OLIVEIRA CASTRO ENTRE MÃOS E MEMÓRIAS: UMA ETNOGRAFIA DA MATERIALIDADE DO BARRO NO POTI VELHO Data: 06/11/2026

    Esta dissertação tem por objetivo analisar as trajetórias e transformações do barro,
    investigando como ele participa da constituição de saberes, práticas e memórias no Poti
    Velho. Para tanto, foram definidos três objetivos específicos: compreender a dimensão
    histórico-territorial do Poti Velho, analisando como a relação com o barro articula
    pessoas, coisas e lugares na constituição de memórias e sentidos de pertencimento;
    acompanhar as trajetórias do barro e as reconfigurações da prática ceramista,
    identificando diferentes formas e usos da matéria; e analisar o fazer cerâmico como
    prática corporificada, investigando como a transmissão de saberes e a experimentação
    com o barro participam do processo produtivo. A pesquisa articula a Arqueologia do
    Presente à etnografia arqueológica, desenvolvida por meio da observação participante,
    da interlocução com artesãs e artesãos, da experimentação com o barro, de registros
    audiovisuais, anotações de campo, mapeamento espacial e elaboração de fichas de
    análise. Os resultados mostram que as mudanças no território e no trabalho com o barro
    repercutiram nas formas, nos usos, na circulação das coisas e na organização da
    produção, enquanto saberes construídos em diferentes momentos continuaram a orientar
    o fazer, sendo transmitidos e reelaborados. As relações de gênero também atravessam
    esse percurso, evidenciando a atuação das mulheres na produção cerâmica. Os registros
    e experiências acompanhados na pesquisa também evidenciam possibilidades de tomar
    o barro como referência para a construção e a transmissão de memórias, para ações de
    educação patrimonial e para a reflexão sobre os processos de patrimonialização no Poti
    Velho. Conclui-se que seguir o barro permite compreender como seus percursos se
    articulam às maneiras de trabalhar, aprender, produzir, lembrar e permanecer no Poti
    Velho, revelando, por meio de sua materialidade, diferentes aspectos das relações, dos
    saberes e das experiências que constituem a vida no território a partir da margem.


    KALLIO AÉCIO RODRIGUES DE OLIVEIRA Fogo na furna: arqueologia da cremação no sítio Lagoa de Cima II – São Miguel do Tapuio – PI Data: 14/09/2026

    Esta dissertação tem como objetivo principal o estudo do sítio arqueológico Lagoa de Cima II (LC II), localizado no município de São Miguel do Tapuio, no Estado do Piauí, dando especial importância ao seu contexto bioarqueológico. O sítio consiste em uma pequena cavidade arenítica contendo remanescentes humanos desarticulados, fragmentados e com evidências de diferentes níveis de alterações térmicas decorrentes da prática de cremação como ritual funerário. Enfatiza-se que nas paredes rochosas da entrada da cavidade e do entorno há gravuras e pinturas rupestres. Procedimentos metodológicos interdisciplinares foram utilizados tanto nas etapas de campo quanto nas laboratoriais. A fase de campo consistiu em dois momentos, um prospectivo, realizado com o intuito de mapear e entender o contexto funerário regional, e outro interventivo, em que se realizou a coleta de vestígios in situ por meio de escavações arqueológicas sistemáticas. Esse procedimento evidenciou mais de 45.000 peças osteológicas, além de cultura material associada. Na etapa de laboratório os esforços foram direcionados para a caracterização dos remanescentes humanos, no que diz respeito à paleodemografia, buscando informações essenciais como sexo, estimativa de idade à morte e número mínimo de indivíduos, além de inferências sobre paleopatologias e estresse fisiológico. Identificou-se a deposição de pelo menos 17 indivíduos de idades variadas, havendo uma ocorrência acentuada de indivíduos em idade fetal e/ou neonatal, todavia a diagnose sexual foi prejudicada pela ausência de peças diagnósticas. O levantamento das patologias apontou a ocorrência de doenças degenerativas que acometiam as articulações dos pés e das mãos. Além disso, foram verificados patógenos bucais – cáries e tártaros; sinais de traumas ósseos em ulnas e falanges dos pés, e o registro de estresse fisiológico em um dos metatarsos. As análises arqueométricas contribuíram excepcionalmente com informações sobre o contexto funerário estudado. A datação radiocarbônica de um fragmento de osso humano revelou uma cronologia de 2.110 ± 30 anos antes do presente (AP) para o contexto funerário do sítio LC II. Duas amostras de ossos foram submetidas a análises de isótopos estáveis visando a obtenção de inferências sobre a paleodieta dos indivíduos investigados, entretanto, em razão das alterações estruturais provocadas pelo aquecimento, os dados obtidos são inconclusivos. A arqueometria também forneceu informações relevantes sobre o ambiente deposicional, por meio da análise química e pH dos principais estratos arqueológicos. Os resultados mostraram que a utilização do sítio pelas populações pré-coloniais promoveu alterações expressivas na química do solo e na estrutura superficial do interior da cavidade arenítica, sendo evidente a assinatura química relativa aos sucessivos rituais de cremação in situ. A cultura material, embora reduzida pela ação das chamas, evidencia o domínio de técnicas de manufatura em fibras vegetais trançadas, o uso de materiais cerâmicos, e a predominância de artefatos líticos fabricados com matérias-primas alóctones, indicando mobilidade territorial dinâmica e/ou sistemas de trocas regionais. Através da leitura material e contextual é possível concluir que o sítio foi utilizado essencialmente para rituais de cremação que alcançaram temperaturas extremas, acima dos 800 °C, o que resultou na elevada alteração estrutural dos ossos e os reduziu a pequenos fragmentos calcinados e carbonizados. Esse estado de conservação óssea se refletiu diretamente nas análises bioarqueológicas, uma vez que diminuiu significativamente a amostra de peças diagnósticas. Entretanto, mesmo diante dessas limitações, pôde-se extrair informações importantes, demonstrando que contextos funerários associados a práticas de cremação, quando investigados por meio de abordagens interdisciplinares, podem revelar informações valiosas sobre aspectos biológicos, tecnológicos e socioculturais das populações estudadas, contribuindo significativamente para a compreensão de práticas funerárias e dinâmicas sociais de grupos humanos antigos. Em relação ao contexto regional, concluiu-se que a cremação evidenciada no sítio LC II não representa uma prática isolada, mas um marcador cultural compartilhado com outros sítios funerários na região, deslocando a cremação de uma aparente exceção ritualística para um fenômeno regional.


    ANA LUZIA PINHEIRO DE FREITAS Nós Mortos que aqui Estamos, por Arqueólogos Esperamos: Banco de Dados sobre Contextos Funerários como Ferramenta para Propôr uma Musealização da Morte no Piauí Data: 08/04/2026

    Esta pesquisa apresenta a construção de um banco de dados sobre contextos funerários do estado do Piauí, concebido como uma ferramenta para propor formas de musealização da morte que não envolvam a exposição direta de indivíduos humanos. Para tanto, apresenta-se inicialmente um breve histórico da musealização da arqueologia, especialmente no que se refere aos contextos relacionados à morte. Em seguida, são discutidas práticas que permeiam os campos da Museologia e da Arqueologia, bem como legislações vigentes em outros países relacionadas ao tratamento e à exposição de remanescentes humanos. Também são apresentados exemplos da adoção dessas práticas no Brasil e em outros contextos internacionais, com o objetivo de refletir sobre a construção de uma arqueologia orientada por perspectivas decoloniais e pela participação de povos indígenas. No desenvolvimento do trabalho, são discutidos conceitos relacionados à organização e à utilização de bancos de dados, abordando a mudança paradigmática na estrutura do banco que vem sendo desenvolvido desde 2019 no âmbito desta pesquisa. No que se refere à metodologia, a primeira etapa descreve o processo de aquisição das informações. No contexto acadêmico, os dados foram obtidos por meio de revistas científicas e repositórios universitários, enquanto, no âmbito do licenciamento ambiental, a coleta ocorreu a partir do Sistema Eletrônico de Informações (SEI). Na segunda etapa metodológica, discute-se o processo de transformação conceitual e de design do banco de dados, destacando sua relevância para a modelagem da estrutura proposta. Quanto aos resultados, foram identificados 161 indivíduos provenientes de 36 sítios arqueológicos com contextos funerários, os quais foram organizados em seis grupos regionais: Serra da Capivara, Afloramentos Calcários, Corredor Ecológico, Serra das Confusões, São Miguel do Tapuio e Entorno, e Sítios Isolados. Também foram identificadas as Instituições de Guarda reconhecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no estado do Piauí, o que possibilitou estabelecer um panorama da situação atual desses indivíduos. Por fim, nas discussões são levantadas questões relacionadas ao desenvolvimento da pesquisa, buscando avaliar a viabilidade do banco de dados como instrumento para uma proposta alternativa de musealização da morte. Tal reflexão considera, sobretudo, as dificuldades de acesso à informação identificadas ao longo de todo o processo investigativo.




    Dissertações/Teses - 2025

    DARLLISON ALVES PEREIRA As Dinâmicas de Poder e Resistência Colonial em José de Freitas – PI e o seu Potencial Turístico Arqueológico Data: 30/09/2025

    As dinâmicas de poder e resistência colonial e o seu potencial turístico é um tema que aborda a importância do patrimônio material do Piauí, focando na história da instalação das fazendas de gado e na formação do município de José de Freitas, através de uma perspectiva arqueológica. O estudo investiga como a materialidade traz evidências dessas dinâmicas relacionadas a José de Freitas colonial. A pesquisa destaca a relevância da pecuária na economia colonial piauiense e suas implicações para a sociedade contemporânea. O patrimônio arqueológico de José de Freitas possui um potencial significativo para o desenvolvimento do turismo cultural e histórico, que beneficia a comunidade local tanto economicamente quanto culturalmente.  Ressalta-se a falta de estudos arqueológicos no município e evidencia-se a necessidade de um levantamento detalhado dos sítios arqueológicos locais. Utilizando-se de levantamentos e análises bibliográficas, prospecções de reconhecimento de áreas e da coleta de entrevistas com moradores foi possível mapear alguns sítios arqueológicos e sugerir rotas turísticas que valorizem o patrimônio cultural local.  Autores como:  Najjar (2011), Orser Jr (2000) e Zarankin (2001) foram teoricamente fundamentais. Contribuíram para a compreensão histórica, Costa (1974), Mott (2010), Almendra (1956) e Bandeira (2007). O resultado desta pesquisa aponta como ocorreram as mudanças de poder e dominação entre os grupos de elite, assim como às mudanças nas formas de resistência dos subalternizados.  A diversidade dos artefatos nos dá uma noção relacionada a estas dinâmicas de poder no período colonial em José de Freitas.


    GEIFANCE ABREU SANTOS ESPECTRO TUPI EM TERRAS MARANHENSES: análise das vasilhas cerâmicas Tupi conhecidas para o estado do Maranhão Data: 02/07/2025

    O estado do Maranhão abriga um vasto conjunto de dados sobre as
    populações indígenas Tupi do passado, cujas ocupações deixaram registros em
    diversos sítios arqueológicos distribuídos pelo território. Este estudo investiga vinte
    vasilhas cerâmicas inteiras e semi-inteiras, provenientes do acervo do Centro de
    Pesquisa em História Natural e Arqueologia do Maranhão (CPHNAMA), com o
    objetivo de compreender a distribuição e as transformações culturais dos povos
    Tupi no Maranhão, classificados como Tupi do Norte, Proto-Tupinambá e
    Tupinambá. Através da análise componencial, tecno-morfológica e dos sistemas
    técnicos formadores da cadeia operatória das vasilhas estudadas, foi possível
    identificar elementos diagnósticos que subsidiaram o entendimento sobre a
    dinâmica de sucessão cultural em virtude da configuração das rotas de expansão
    Tupi, evidenciada pela presença e a persistência de atributos amazônicos no
    contexto regional maranhense. A pesquisa também revela a importância da região
    do interflúvio Tocantins-Araguaia como um elo estratégico no processo migratório
    Tupi, demonstrando que o Maranhão foi atravessado e ocupado por diferentes
    grupos do espectro Tupi ao longo do tempo. Assim, ao investigar os aspectos tecnoculturais
    impressos nas vasilhas, este trabalho contribui para a compreensão das
    conexões entre os sítios Tupi no Maranhão, ampliando o entendimento sobre os
    processos de expansão, adaptação, continuidade e mudança cultural dos povos
    Tupi no estado.


    LUZ BISPO LIMA Práxis queer: a arqueologia queer na análise interpretativa de arte rupestre Data: 31/03/2025

    Esta dissertação representa um esforço inicial, ainda que não único, de demonstrar como a flexão dos conceitos de gênero e sexualidade pode ampliar a compreensão sobre as identidades humanas. Parte-se da hipótese de que, por meio da análise da arte rupestre, é possível explorar nos sítios arqueológicos do mundo, e especialmente do Brasil, vestígios de conceitos e contextos apagados pelos processos de colonização. O objetivo central é evidenciar como gênero e sexualidade são categorias passíveis de reconhecimento e reinterpretação na pré-história brasileira, revisitando os marcos teóricos nos quais essas experiências foram sistematicamente silenciadas por uma lógica colonial e normativa. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada na análise de artigos e livros a partir de uma iconográfica e hermenêutica de registros rupestres encontrados em sítios arqueológicos brasileiros, com ênfase na região do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Apoiada em referenciais da arqueologia de queer, dos estudos decoloniais e das epistemologias feministas, a dissertação busca desconstruir leituras hegemônicas e binárias da pré-história, propondo novas formas de interpretar os vestígios materiais e simbólicos do passado. Entre os principais resultados, destaca-se a formulação de conceitos como o antropomorfismo queer, que propõe uma leitura não binária das figuras humanas representadas, além das categorias homofálicoafetivo e homovulvoafetivo, que reconhecem, a partir de evidências visuais e simbólicas, a existência de afetividades e relações homoeróticas na ancestralidade. Conclui-se que refletir sobre gênero e sexualidade por meio da arte rupestre não apenas desestabiliza as narrativas hegemônicas sobre o passado humano, mas também propõe um novo vocabulário teórico-metodológico para a arqueologia, baseado em perspectivas transgressoras, inclusivas e decoloniais.


    JOALBO MENEZES DE MORAES A alimentação de grupos subalternos nos séculos XIX e XX na vila de Santa Isabel do Paraguassú, Bahia Data: 14/03/2025

    Neste trabalho, analisei as práticas alimentares de grupos sertanejos – garimpeiros, meeiros, escravizados e comerciantes – residentes na vila de Santa Isabel do Paraguassú (atual município de Mucugê), localizada na Chapada Diamantina, Bahia, no último quartel do século XIX e primeiro do século XX. O trabalho foi realizado a partir da análise de fragmentos de louças recuperados em sítios arqueológicos situados no centro da cidade, e de seu confronto com documentos escritos, literários, imagéticos e orais. O emprego deste procedimento visava atingir esses grupos invisibilizados, aproveitando as possibilidades oriundas dos estudos de Arqueologia da Alimentação e, assim, tornar possível o aprofundamento de questões que envolvem seu cotidiano, através do exame das relações entre consciência social, experiência vivida e condições materiais que pudessem indicar mudanças ou permanências nas tradições alimentares locais. Com isso pretendia identificar representações ideológicas incorporadas pelos agentes sociais fixados no espaço urbano de Mucugê, no que tange às inter-relações entre práticas de produção de alimentos, aquisição, consumo e descarte de utensílios; traçar um perfil do sistema social alimentar de Mucugê e perceber os padrões de consumo ligados aos utensílios domésticos oitocentistas, especialmente as louças, ao caracterizar aspectos como origem das peças, datação, tipos e preços. Ao final da análise verifiquei que os grupos-alvo do estudo consumiam de forma preferencial as louças mais baratas, embora a análise da amostra tenha revelado que adquiriam louças caras também, mas sem que fizessem parte de conjuntos (baixelas, aparelhos), como costumam adquirir os grupos elitizados, para consumo de alimentos em ocasiões específicas, seguindo regras de etiqueta. Portanto os grupos estudados apresentavam maior informalidade nas refeições cotidianas, não fazendo uso de regras rígidas. Até os dias atuais, a base alimentar dos grupos subalternos mucugeenses é pautada nos mesmos alimentos que compunham os “Sacos”, fornecidos pelos interessados na exploração dos garimpos aos trabalhadores do ramo da mineração, no século XIX.